domingo, 21 de maio de 2017

KID VINIL



Recebi a notícia ontem...TRAVEI! Quis expressar algo... Não conseguia!

Qualquer pessoa que gosta de rock no Brasil, pode negar, pode nem saber, mas de alguma forma, deve algo a ele. KID VINIL era o cara do Magazine, aquele que eu imitava nas festas de família quando tinha 10 ou 11 anos de idade, e ficava cantando e dançando loucamente junto de meus primos e irmão, a música "Sou Boy" - um de seus maiores sucessos, lançados nos anos oitenta.

Admito que nunca gostei muito de ouvir rádio, mas ele foi o cara que me fazia parar para ouvir e eu dedicava meu tempo com prazer para escutar sua voz na 89 FM e também na Brasil 2000. E ele era o cara que eu gostava de assistir também no histórico Som Pop - primeira fonte de video clipes, que rodou na TV Cultura bem antes da chegada da MTV no Brasil. É aquele que eu, com pouco menos de 15 anos de idade, ia ver toda segunda-feira no Teatro Franco Zampari, ali no Bom Retiro, em frente à Fatec, onde acabei estudando, nas gravações do programa Boca Livre (que hoje é copiado de forma menos interessante nas grandes redes), da mesma TV Cultura.

Sempre que me pegava olhando minha estante de discos - que tem aproximadamente uns 1.000 itens, todos bem organizadinhos - eu ficava pensando: "um dia quero chegar perto do Kid Vinil".


O encontrei algumas vezes pessoalmente. Várias vezes para dizer a verdade. Nunca fomos muito próximos, mas ele sempre se mostrou uma pessoa doce, gentil e educada. Kid Vinil se foi e nem eu sabia o quanto de "culpa" ele teve na minha educação - já que me apresentou caras no palco, que muitos hoje são meus amigos. Kid me ensinou muito!

Antonio Carlos Senefonte, o pai do Kosmo, o radialista, o apresentador, o cantor, o executivo de gravadora, o professor, o Kid Vinil! Já está fazendo muita falta.

Descanse em Paz!


Texto publicado em ROCKONBOARD.

GBH / TOTAL CHAOS Invasores de Cérebros / Armagedom / KOB 82

Clash Club – São Paulo – SP
07/05/2017


Por Ricardo Cachorrão Flávio


Uma semana antes, a região da Barra Funda estava coalhada de skinheads, com alguns punks infiltrados, para assistir ao show do Cockney Rejects... Neste domingo, a região era toda dos punks, numa grande noite de celebração, com a lenda britânica GBH para encerrar a festa.

Infelizmente, os produtores de shows parecem não se conversar, ou se o fazem, querem apenas um engolir ao outro! É muito bom saber que o Brasil faz parte da rota internacional de shows e espetáculos, mas, cabe a quem produz isso ter o mínimo de bom senso de conhecer o público alvo dos artistas com quem negociam, e não marcarem shows seguidos de artistas do mesmo estilo, cujo público NÃO TEM DINHEIRO, pois o resultado será casas vazias, com público reclamando do preço dos ingressos.

Para ver o show do GBH, com abertura dos norte-americanos do Total Chaos, e mais três bandas brasileiras significativas do estilo, pagar R$ 90,00 é muito mais do que justo! Quem trouxe a banda teve que arcar com custos de passagens aéreas da Europa e dos EUA, hospedagem, transporte, alimentação, aluguel do espaço, além do óbvio cachê, e, se não tiveram bons públicos em outras praças, o show de São Paulo provavelmente deu prejuízo. Uma casa com capacidade para 1000 pessoas recebeu aproximadamente 300 nesta noite. Essa foi a parte triste.

Para piorar um pouco o início da festa, foi dia de final do Campeonato Paulista de futebol, com jogo do Corinthians às 16:00, e é certo que boa parte do público esperou o fim da partida para sair de casa. O horário é de matinê e pouco após às 17:00, os meninos do KOB 82, Tato, Presunto, Raul e Limão, subiram ao palco para público pequeno, formado basicamente por fieis e animados amigos e deram conta do recado. A banda está amadurecendo e mostrando um trabalho consistente e cada vez com mais admiradores.

Sem muita demora, a segunda banda da noite é o veterano ARMAGEDOM, que conta apenas com o guitarrista Javier da formação original, de 1982, e que vem acompanhado do vocalista Renato, do baixista Claudinei e do Pedro, também do Agrotóxico, na bateria. A banda está afiada e faz um grande show, fazendo um balanço de sua longa carreira.



Reformulado, após a morte do baixista original Zorro, em julho do ano passado, que também fez parte da seminal banda M-19, os INVASORES DE CÉREBROS, liderados pelo bom e velho Ariel, fazem o bom show de sempre, com muito protesto e realidade, nua e crua, cuspindo verdades contra tudo e todos, e mostrando que uma banda brasileira é capaz de agitar e cativar o público tanto quanto os gringos. Além do repertório da banda, Ariel ainda dedica duas músicas ao velho parceiro Douglas Viscaino, guitarrista fundador dos Restos de Nada, falecido poucos anos atrás.



Os intervalos entre as bandas são curtos, e chega a vez dos norte-americanos do TOTAL CHAOS, pela primeira vez no Brasil, subir ao palco e literalmente detonar tudo! Na estrada desde 1989, Rob Chaos, vocais, Shawn Smash, guitarra, Miguel Conflict, bateria, este um dos que mais falou com o público, em espanhol, e o baixista Chema Zurita, usando uma camiseta dos paulistanos do Agrotóxico, tocaram e animaram do início ao fim. Com som que lembra muito os escoceses do The Exploited, a banda deu muito bem o seu recado, e certamente ganhou adeptos entre os que ainda não os conhecia.



Pouco mais de 10 minutos antes do horário programado, Collin Abrahall, voz, Jock Blyth, guitarra – usando uma camiseta dos Ratos de Porão, com quem o GBH tocou no sábado, no Recife, Ross Lomas, baixo e Scott Preece, bateria, sobem ao palco e fazem exatamente o que todos esperam, desfilam 39 anos de excelentes serviços prestados ao punk rock mundial!

Sem novidades em relação ao repertório dos shows da banda por aqui em 2011 e 2013, inclusive com as músicas tocadas na mesma sequência, a banda mostra competência, carisma e não deixa pedra sobre pedra! O público insano invade o palco durante toda a apresentação, divide o microfone com o Collin, e abusa dos moshes! Tudo bem recebido pela banda!

Da abertura, com “Unique”, faixa do último álbum lançado por eles, “Perfume and Piss”, de 2010, passando por clássicos como “Alcohol”, “No Survivors”, “Sick Boy” ou “City Baby Attacked by Rats”, o GBH faz o que todo mundo já sabe como será, e, ainda assim, deixa todo mundo de boca aberta! O encerramento foi com “Hey Keef”. Uma pena o público pequeno, quem não foi, perdeu uma noite das melhores!


SET LIST:

1.       Unique
2.       Race Against Time
3.       Knife Edge
4.       Lycanthropy
5.       Necrophilia
6.       State Executioner
7.       Dead on Arrival
8.       Generals
9.       Freak
10.   Alcohol
11.   No Survivors
12.   Self Destruct
13.   Big Women
14.   Sick Boy
15.   Slit Your Own Throat
16.   Am I Dead Yet?
17.   Give Me Fire
18.   Man Trap
19.   Catch 23
20.   Helhole
21.   Kids Get Down
22.   Drugs Party in 526
23.   Diplomatic Immunity
24.   City Baby Attacked by Rats
25.   City Baby’s Revenge
26.   Hey Keef





Texto publicado no ROCKONBOARD.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

COCKNEY REJECTS

Clash Club – São Paulo – SP
30/04/2017


Por Ricardo Cachorrão Flávio
Foto: Sérgio "Punk" Domingos




Quase sete anos após a última visita ao Brasil, os ícones da ‘Oi Music’ do COCKNEY REJECTS voltam ao país sem novidades, mas embalados por uma homenagem à Chapecoense, que na verdade é a música “Goodbye Uptown Park”, escrita ano passado por ocasião do fechamento do estádio do West Ham United, time do coração dos britânicos, com uma letra adaptada às vítimas da tragédia da equipe catarinense. Jogo de Marketing? Pode até ser, mas por entrevistas dos músicos pouco antes da turnê, me pareceu algo honesto, feito por apaixonados por futebol que são.

Exatamente como nas outras vezes em que o Cockney Rejects veio ao Brasil, e tocou no Hangar 110 e no Inferno Club, aqui em São Paulo, o clima de tensão existiu na Clash Club, por conta de possíveis brigas entre punks e carecas. A barra começou pesar na rua bem antes do show, punks e carecas se estranharam, xingamentos aqui e ali, empurra-empurra, mas a turma do “deixa disso” controlou a situação, deixando claro que todos estavam ali pelo mesmo motivo, curtir o som! Por via das dúvidas, viaturas de polícia foram chamadas e ficaram de guarda na porta da casa para controlar qualquer tumulto.

Já dentro da casa, com público muito aquém do que já foi visto com outras bandas da mesma época (vale lembrar que no mesmo final de semana tocaram em São Paulo o Midnight Oil, o Suicidal Tendencies e o Tiger Army e na próxima semana, vem o GBH, todos com ingressos caros para o público alvo), a noite começou com o som da banda THE BEBER’S OPERÁRIO, vindos da cidade de Itatiba, interior de São Paulo. Som OI que agradou e fez todo o público dançar, e, diferente das outras vezes onde o público estava bem mesclado, desta vez existiam muito mais carecas que punks. Além do trabalho próprio, com letras que falam de cotidiano, protestos, mas também diversão e amizade, a banda ainda fez um cover dos Garotos Podres. Agradou a todos.

Na sequência e sem demora, no palco os rapazes da banda FACA PRETA, de São Paulo, mostraram o som e também agradaram a todos. Na estrada desde 2013, a banda tem participação na coletânea “Para Incomodar – Street Punk Brasil – Vol.2”, e um vinil 7”, lançado pela HBB Records, além do recém lançado clipe da música “Vida Dura”. Durante o show o pogo rolou solto, e ainda teve tempo para um cover,  com a música “Quanto Vale a Liberdade?”, do Cólera.

Sem muita espera, Jeff Turner, Mick Geggus, Vince Riordan e Andrey Lang, mostraram o que se espera do COCKNEY REJECTS, muita energia e punk rock! Mataram a saudade de quem os viu anos atrás e a curiosidade de muitos que foram pela primeira vez assistir a banda. O show faz um balanço de 38 anos de atividade deles, e abre com a cacetada “Fighting in the Streets”, passa por ótimos sons como “We Are the Firm” ou “Power and the Glory”, mas, como já dito, não teve nada de novo, e a casa vazia ainda fez a noite ser um pouco mais chata.

Claro que essa é apenas a opinião de quem não tem muito mais paciência para encarar uma roda de pogo cheia de carecas, mas a galera que estava na frente do palco pareceu estar em êxtase de ver seus ídolos hooligans de perto! E assim foi... breve parada, como é praxe, volta com “Police Car”, o hino do West Ham “I’m Forever Blowing Bubbles”, que nunca pode faltar, e, óbvio, “Oi! Oi! Oi!” para fechar a noite em grande estilo! Os tiozinhos estão em forma, uma pena é essa divisão de público, não teve brigas, mas era nítido que boa parte de quem estava lá dentro estava “cabreiro” com diferenças antigas que podiam ser desafiadas a qualquer instante.


SET LIST:

1.       Fighting in the Streets
2.       Your Country Needs You
3.       New Song
4.       We Are the Firm
5.       Subculture
6.       The Power and the Glory
7.       I’m Not a Fool
8.       Headbanger
9.       On the Run
10.   Where the Hell is Babylon
11.   We Can Do Anything
12.   East End
13.   The Rocker
14.   Join the Rejects
15.   On the Streets Again
16.   The Greatest Cockney Rip Off
17.   Bad Man
18.   War on the Terraces
19.   Flares ‘n’ Slippers
20.   Goodbye Uptown Park
21.   Police Car
22.   I’m Forever Blowing Bubbles
23.   Oi! Oi! Oi!


 Texto publicado originalmente no ROCKONBOARD.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

MIDNIGHT OIL

Espaço das Américas – São Paulo – SP
29/04/2017


Depois de mais de 15 anos afastados dos palcos, eis que o MIDNIGHT OIL anuncia a “The Great Circle 2017 World Tour”, começando na Austrália, seguida de 5 shows programados para o Brasil e a volta completa no mundo, terminando onde começou, novamente na Austrália, em novembro. Neste último sábado de abril, São Paulo se curvou diante de Peter Garrett, Rob Hirst (bateria e vocal), Martin Rotsey (guitarras), Jim Moginie (guitarras, teclados e vocais) e Bones Hillman (baixo), todos em perfeita forma.


Por Ricardo Cachorrão Flávio




 Noite fria em São Paulo, casa completamente lotada na Barra Funda, aproximadamente oito mil pessoas pagaram caro para ver esse retorno do Midnight Oil aos palcos. Fato que impressionou conterrâneos de Peter Garrett! Pouco antes do começo do show um rapaz veio puxar conversa, em inglês, dizendo ser australiano e morar há pouco tempo no Brasil, veio de Belo Horizonte para ver os seus ídolos nativos e ficou impressionado com tanta gente estar ali para ver a banda.

Indo ao que interessa, cerca de 15 minutos antes do horário previsto para o show, o som ambiente deixou os clássicos que vinha tocando até então de lado e passou a tocar temas instrumentais, que não posso afirmar com certeza, mas em minha cabeça aquilo tinha relação com música aborígene, já fazia parte do espetáculo e, pontualmente às 22:00, apagam-se as luzes, banda no palco e “Blue Sky Mine” já faz o jogo começar ganho! Sequência com “Truganini” e nocaute confirmado!

O gigante Peter Garrett, 64 anos recém completados, esbanja carisma, simpatia e presença de palco, do básico “boa noite, São Paulo” as outras tentativas de se expressar em nosso idioma, para explicar as músicas e até a escorregada no final com um “Obrigado, Curitiba”, são recebidos com enorme alegria por todo o público, em sua maioria composto por pessoas maduras, muitos acompanhados de filhos adolescentes.

O repertório do show passa por toda a extensa carreira da banda, na estrada desde 1976, sendo que tudo o que vem do palco é bem recebido e muitos cantam absolutamente tudo o que é tocado, mas, é nos grandes hits (e não são poucos) que o público explode de emoção, como na introdução de “King of the Mountain”.

Além do carismático vocalista, outro grande destaque por toda a presença fica para o baterista Rob Hirst, que além de mostrar competência com as baquetas e quando cantou em todo o show, foi responsável por um solo correto, sem se tornar chato e enfadonho, como é comum acontecer nesse tipo de intervenção.

As músicas vão se sucedendo, o público canta e dança sem parar, até que chegamos a um momento intimista, com Peter Garrett anunciando, em português, que “esta música fala que todos os homens são da mesma tribo”, e “My Country” chega apenas com Jim Moginie ao piano. Sequência acústica com “When the Generals Talk” e “Luritja Way” e retorno à eletricidade com “US Forces”, faixa do álbum “10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1”, de 1982.

Continuação arrasa-quarteirão, que já dava indícios de fim de festa, com “The Dead Heart”, “Beds Are Burning”, talvez a música mais comemorada do show, “Read About It” e “Forgotten Years”, que se encerra com a despedida e agradecimentos gerais.

Pausa super curta e a banda volta para o bis com “Put Down That Weapon”, “Now or Never Land” e “Sometimes”.

Uma banda de rock, mas, como eles mesmos dizem, não apenas isso. Uma banda de rock com algo a dizer, conteúdo, engajamento e necessidade de nossa parte que não se ausente mais por tanto tempo. Uma noite e tanto, obrigado “The Oils”!

SET LIST:

1.       Blue Sky Mine
2.       Truganini
3.       Too Much Sunshine
4.       Redneck Wonderland
5.       Under the Overpass
6.       King of the Mountain
7.       Short Memory
8.       Earth and Sun and Moon
9.       Power and the Passion
10.   Antarctica
11.   Only the Strong
12.   Arctic World
13.   Warakurna
14.   Dreamworld
15.   My Country (piano)
16.   When the Generals Talk (acústica)
17.   Luritja Way (acústica)
18.   US Forces
19.   The Dead Heart
20.   Beds Are Burning
21.   Read About It
22.   Forgotten Years

BIS

23.   Put Down That Weapon
24.   Now or Never Land
25.   Sometimes



Texto publicado originalmente em ROCKONBOARD.


sábado, 14 de janeiro de 2017

Sepultura - “Machine Messiah”

Sepultura
“Machine Messiah”

Nuclear Blast Records – 2017

Por: Ricardo Cachorrão Flávio

Nota: 9,0



 “Machine Messiah” começa de forma louvável, mostrando que o Sepultura não parou no tempo, não se prende nem se importa com a ladainha de velhos integrantes que não cansam de dar declarações polêmicas e não se transformou em cover de si próprio, como é mais do que comum em bandas tão longevas como eles. A faixa título começa lenta, com Derrick Green mostrando que não é apenas um vocalista de berro, canta de forma limpa e bem postada e vai crescendo e acelerando. Bela canção, diferente, mas, Sepultura.

A sequência é pau puro! “I Am the Enemy”, que a banda já havia divulgado ano passado, é um crossover metal-hardcore nervosíssimo, pra tocar o puteiro nos shows e fazer a roda ficar insana! Logo depois, experimentos bem vindos... “Phantom Self”, outra que já havia sido liberada, começa com uma batida de maracatu que me remeteu diretamente à Nação Zumbi, banda que o Sepultura sempre respeitou e chegou a gravar, mas com o desenrolar nota-se que é muito mais que isso, a presença de uma orquestra tunisiana dá um clima apocalíptico à canção, a cozinha de Paulo Xisto e Eloy Casagrande fazem a cama perfeita para os solos cortantes de Andreas Kisser e a massa sonora vinda dos violinos da orquestra. Grande canção!

De acordo com o release do álbum, entrevistas e o ‘making of’ divulgado pela banda com o andar das gravações, feitas na Suécia, “Machine Messiah” foi inspirado no uso da tecnologia e no processo de robotização da sociedade. Sua capa é um belíssimo trabalho feito pela filipina Camille Dela Rosa, intitulado “Deus Ex-Machina”, segundo Andreas Kisser, não foi um trabalho feito por encomenda, foi feito há seis anos, mas, na medida para o conceito do álbum que vieram a gravar, ou, o que se pode chamar de casamento perfeito.

É um disco que se deixa ouvir por inteiro, e não consigo mostrar um ponto alto, todas as canções têm seus méritos, e não consegui encontrar pontos negativos. “Alethea” começa com um excelente trabalho de percussão de Eloy Casagrande, talvez o melhor baterista que a banda já teve. E no embalo vem a cecetada instrumental “Iceberg Dances”, que passa do heavy metal clássico a várias outras influências com uma naturalidade impressionante.

“Sworn Oath” aproxima a banda de thrash metal ao metal convencional, com quilos de teclados deixando um clima grandiloquente, épico. Derrick Green grita forte, e bem colocado e a faixa trás o peso característico da banda, mas sem acelerar. Música para assustar velhinhas indefesas... ou canção de ninar, no meu caso.

“Resistant Parasites” começa como o velho Sepultura, nervoso, brutal, mas os teclados e orquestrações dão um toque diferenciado no decorrer da canção, que conta também com solo limpo que destoa da base suja e pesada característica da banda, isso é o que eu quis dizer lá no início, o Sepultura não parou no tempo. “Silent Violence” e “Vandals Nest” são porradas certeiras, pra não deixar pedra sobre pedra.

Para fechar esse manifesto da banda sobre o virtual domínio da máquina sobre o homem, “Cyber God”, que como na faixa de abertura mostra um Derrick Green cantando de forma límpida e mais segura que nunca. Uma bela canção para findar um excelente disco.


Num balanço geral, o Sepultura completa 33 anos maduro e ainda com lenha pra queimar. Enquanto os irmãos Cavalera saem em turnê cantando e tocando Sepultura, e aproveitam para destilar veneno e acusar os remanescentes de negar uma reunião, Andreas, Paulo, Derrick e Eloy trabalham firme e mostram do que são capazes, numa clara evolução desde “Against” – o primeiro trabalho pós-separação. E sempre é bom lembrar que Derrick Green está completando 20 anos com a banda, que é bem mais do que Max cantou com eles. Para os antigos e chatos fãs xiitas, a banda nunca parou, quem saiu foi o Max, contra até mesmo o inseparável irmão de agora e Derrick merece maior respeito de todos, sempre honrou a banda e tem qualidade de sobra. Que venha turnê, que venham novos discos.

Obs.: Texto publicado no ROCKONBOARD.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Dropkick Murphys - “11 Shorts Stories of Pain & Glory”

Born & Bred Records – 2017

Por: Ricardo Cachorrão Flávio

Nota: 10,0





“11 Shorts Stories of Pain & Glory” é o nono álbum de estúdio do Dropkick Murphys, excelente banda de Celtic punk formada no estado de Massachusetts, EUA, em 1996, e que estava desde 2013 sem lançar nada de novo, quando saiu “Signed and Sealed in Blood”.

A história de gravação desse álbum começou quando a banda decidiu sair de Boston pela primeira vez para gravar e se isolar longe de casa, família e situações cotidianas. Foram para o Texas e chegaram a explicar que o tempo passa para todos, e em tempos passados eles não tinham tanta coisa para esquentar a cabeça, por isso definiram que precisavam desse isolamento para dedicação total ao trabalho e a partir de maio/2016 começaram a postar vídeos com as sessões de gravação no meio do nada.

Segundo algumas declarações do baixista e vocalista Ken Casey, este álbum foi muito influenciado pelo trabalho que a banda realiza com o The Claddagh Fund, uma instituição de caridade criada e mantida pela banda desde 2009, para ajudar a recuperação de pessoas do vício, além de apoiar crianças abandonadas e veteranos de guerra.

Indo ao que interessa... Dropkick Murphys é uma banda que não grava simples canções, mas o que se ouve num álbum da banda é uma seleção de hinos! E assim começa, com a belíssima canção “The Lonesome Boatman”. Sim, é um hino... Sim, a banda é dos EUA... E sim, o sangue irlandês corre e pede uma caneca de Guinness para acompanhar a audição!

A sequência vem com “Rebels With a Cause”, que fala de crianças que são abandonadas a sua própria sorte e o sistema as classifica como desesperadas, essa é um punk rock mais direto e urgente, sem a veia celta que acompanha a banda. “Blood” é a próxima e a gaita de foles fala alto, e pede outra caneca de Guinness!

“Sandlot” começa com um violão e logo parece que estamos ouvindo uma velha canção dos Pogues, energia pura! “First Class Loser” nos leva de volta até a Irlanda e a impressão de que entoamos mais um hino. “Paying My Way” é a sequência e é outra daquelas que Ken Casey diz ter influência da fundação, fala sobre o caminho para se sair do vício e mirar coisas maiores e melhores na vida.

E o disco vai rolando e chega outro grande momento, “You’ll Never Walk Alone”, aquela mesma entoada pela torcida do Liverpool FC, e que já foi gravada por tanta gente, que vai de Frank Sinatra a Elvis Presley, no caso do Dropkick Murphys, também tem a ver com vício e o trabalho social da banda. Segundo Ken Casey, é de conhecimento público que está ocorrendo uma epidemia de overdoses de derivados do ópio (heroína, por exemplo) nos EUA, e, em particular, em Boston os números são alarmantes. Segundo ele, já esteve em mais de 30 casas de recuperação nos últimos dois anos dando apoio, e recentemente, o vocalista da banda, Al Barr, perdeu um cunhado para esse vício. Menciona que ao sair de uma dessas visitas essa música veio na cabeça e analisando a letra, se resumiu exatamente como ele se sentia, triste, mas sabendo que existe esperança, “Você nunca precisará andar sozinho”!

Em seguida, “4-15-13”, uma homenagem às vítimas do atentado a bomba durante a Maratona de Boston, que eles passaram a conhecer pessoalmente, pois estiveram visitando e tocando para todos no hospital, também como parte do trabalho social que desenvolvem.


“Until the Next Time” encerra o álbum no mesmo nível que começou, muito bem... apesar da banda ter passado o segundo semestre de 2016 divulgando singles desses álbum e não ser totalmente novidade o que ouvimos, por ser lançamento oficial de 2017, podemos dizer que o ano começou bem, muito bem.

Obs.: Texto publicado no ROCKONBOARD.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Violeta de Outono - “Spaces” + Entrevista com Fabio Golfetti

Violeta de Outono - “Spaces”

Voiceprint – 2016



 Por: Ricardo Cachorrão Flávio


Nota: 9,0




 Não é difícil encontrar velhos amigos, e no meio da conversa, ouvir que “poxa, eu gostava muito do Violeta de Outono, banda legal demais... mas acabou, né?”

Não, velhos amigos, o Violeta de Outono nunca acabou! Se você é daqueles que, como eu, cresceu na década de 80, e ali adorava as bandas brasileiras de pós-punk, como Voluntários da Pátria, Smack, Fellini, Akira S & As Garotas Que Erraram e, claro, Violeta de Outono, ótimas músicas como os hits “Outono” e “Dia Eterno”, ficaram na história, e são isso, uma excelente história! Óbvio que indo assistir ao vivo a Fábio Golfetti, Gabriel Costa, Fernando Cardoso e José Luiz Dinola, a atual, madura e consistente formação do Violeta de Outono, você ouvirá essas velhas canções, mas, a realidade dos rapazes é bem diferente!

Desde quando deixou de ser um trio e incorporou um quarto elemento à banda, em 2005, com a entrada do tecladista Fernando Cardoso, o Violeta de Outono passou a executar um trabalho mais elaborado e menos comercial, com canções mais longas e excelência instrumental, que acrescentou às suas influências psicodélicas, nítidas desde a formação da banda, em 1984, fortes toques de jazz, eruditos e da cena inglesa de Canterbury, de bandas como Soft Machine, GONG, Caravan, dentre muitas outras. Essas influências podem ser conferidas nos discos “Volume 7”, lançado em 2007, “Espectro”, de 2012 e agora, no excelente “Spaces”, que, segundo os próprios, fecha uma trilogia, que consolida a segunda fase da banda.

E sobre esse “encerramento de um ciclo”, perguntamos para Fábio Golfetti, líder da banda, único membro da formação original, vocalista, guitarrista, compositor, que nos atendeu gentilmente diretamente de Londres, onde se prepara para sair em turnê com o aclamado GONG, do qual hoje também é guitarrista. Agora se fecha uma trilogia, já se tem ideia do que vem pela frente? Qual o futuro do Violeta de Outono?

Na verdade eu considero isso uma trilogia mais pela questão estética da banda, ou seja, quando o Fernando entrou em 2005, o Gabriel também entrou, o som da banda deu uma mudada. Na verdade, não uma mudada, foi um novo começo do Violeta de Outono, que apesar de manter a mesma ideia do início, com a adição do teclado, principalmente, a gente conseguiu fazer algumas coisas que talvez, no começo eu gostaria de ter feito, mas não existia possibilidade de ter um tecladista. Então, esse encerramento de uma trilogia, é mais porque exploramos ao máximo o que daria para fazer com essa formação de instrumentação, então eu digo ‘encerrar uma trilogia’ por não saber o que vai acontecer num próximo trabalho que acho que deve ocorrer daqui a... bastante tempo! Três anos é o mínimo que acho necessário para amadurecer um trabalho. Eu acho que um álbum demora pelo menos uns três anos para amadurecer as ideias, para escrever e ter um material significativo. Então é isso o que quero dizer sobre o encerramento do ciclo, eu não sei o que vai acontecer daqui a três ou quatro anos, quando a gente for fazer um novo álbum.

Mas a ideia de finalizar uma trilogia também é porque eu acho que a banda atingiu um ponto agora onde ela precisa tocar mais ao vivo, então é o que eu queria fazer, queria que o repertório desses três discos fosse a base do repertório dos shows pelos próximos anos, ou seja, que a gente explorasse esse repertório e tocasse ao vivo bastante, pra realmente marcar essa fase da banda, marcar esse trabalho. Eu vejo muito assim... a banda ficou nos anos 80, em 86, 87, a gente tocou bastante aquele repertório e a banda é conhecida, passaram 30 anos e a banda é conhecida ainda por aquele repertório. Eu queria tentar que a gente conseguisse virar... não virar uma página, a gente não vai abandonar totalmente o passado, porque isso é como a banda se formou, mas eu gostaria de marcar essa fase com o Fernando, com o Gabriel, que é uma fase que dura mais tempo, na verdade, que o início da banda. Então, eu sei que é difícil, porque existia na época uma máquina de divulgação, que hoje talvez, não tenha mais, mas por outro lado, eu acredito que o Violeta de Outono conseguiu se reinventar sempre, desde os primeiros trabalhos até hoje, e eu fico feliz com isso e espero que a gente consiga marcar essa fase dos últimos 10 anos e que ela fique registrada. É como se fossem duas bandas, a primeira banda que era formada como um trio e a segunda banda, que é um quarteto. Então é assim, em termos de finalizar trilogia, é isso, encerrar um ciclo de composição nesse formato, não que ele não continua a ser feito nesse mesmo formato daqui uns anos, mas esses três discos representam bem o que a gente explorou, eu acho que o “Volume 7” chegou num ápice de composição desse tipo de rock mais pro progressivo melódico, nessa linha que a gente tem tocado...

E durante a audição de “Spaces”, perguntamos ao Fábio como é pra ele, um fã declarado, estar fazendo parte do GONG, tendo participado dos últimos álbuns, estar em vias de sair em turnê e que acabou de lançar novo trabalho, mesmo após a morte do líder Daevid Allen.

Imagine você que cresceu sua adolescência ouvindo um som, e o som que você mais gostava, que no meu caso era o GONG realmente, eu comecei ouvir esse rock com o Soft Machine, Pink Floyd, que foram os dois grupos que me inspiraram a tocar música, a querer ser músico... só que a distância era muito grande na época, imagine que se eu tinha 15 anos e esses caras tinham 30! 15 anos de diferença, talvez um pouco menos! Mas era uma distância muito grande... aí o que aconteceu foi que nos anos 90, quando eu entrei em contato com o Daevid, no final dos anos 80, na verdade, a gente começou trocar cartas e eu acabei ficando amigo do Daevid desde essa época, 89... 90... tanto que eu consegui trazê-lo ao Brasil em 92, num festival, que foi a ECO92 que teve aqui no Brasil, e a gente fez um show juntos em Brasília, poucas pessoas sabem disso... enfim, a gente manteve o contato e um belo dia eu mandei uma carta pra ele falando ‘se você precisar de um guitarrista pra alguma turnê do GONG, eu to disponível e tal’... foi uma pergunta mais numa amizade do que eu realmente pedir um emprego pro GONG, porque não é assim que funcionam as coisas... e o que aconteceu foi que ele me respondeu e falou ‘olha, eu tenho um projeto de fazer uma reunião do GONG em 2006, em Amsterdã, e eu quero que você venha participar tocando o Glissando Orquestra’, que era um projeto de glissandos, porque ele gostava do jeito que eu tocava o glissando... e a partir daí eu fui pra Amsterdã em 2006, participei desse festival e logo em 2007, eu tinha um contato de um festival alternativo de São Carlos, por intermédio do Gabriel, e eles me ofereceram se eu queria trazer o Daevid e mais alguém pra montar um repertório do GONG no Brasil, pra fazer um show, e isso deu origem a uma versão do GONG que a gente chamou de GONG Global Family, que na verdade, o Daevid ficou muito animado com esse tipo de som, porque esse som tinha duas guitarras e ele ficava mais livre pra poder cantar e fazer o glissando, tocar o glissando do jeito dele e ter duas guitarras fazendo um som quase que experimental, um pouco diferente do GONG clássico, e isso ficou na mente dele, porque logo depois, em 2009, ele refez o GONG com alguns membros originais, com o Steve Hillage, com o Mike Howlett e não lembro quem mais estava na banda... ahhh... o Didier Malherbe, o saxofonista, aí o que aconteceu, eles refizeram o GONG com a formação praticamente clássica, só que tanto o Daevid, quanto o Steve Hillage não ficaram muito satisfeitos com o resultado... acho que ficaram, mas assim, o Daevid era uma pessoa que sempre queria buscar coisas novas e ele achou que aquele projeto que estavam fazendo era meio que resgatar o passado, sem muita emoção, apesar de eles terem feito um disco legal, mas era uma coisa que parecia não uma... um projeto que tivesse seguindo uma renovação, e aí foi quando ele me mandou um e-mail perguntando se eu não queria me juntar definitivamente ao GONG, na turnê que ia acontecer em 2012, aí na hora me deu um... fiquei surpreso, óbvio! Receber um convite assim mais desse jeito, porque ele já falou, olha tem um lado bom e um ruim, o lado ruim é que não é muito dinheiro, o lado legal é que você vai tocar num monte de lugares, é divertido... e, pra mim, o mais complicado era a responsabilidade que eu tinha que substituir o Steve Hillage, que sempre foi minha referência de guitarrista... uma das minhas grandes referências! Mas aí, foi uma primeira experiência, vim aqui pra Inglaterra e fizemos 50 shows, acho, em 2012, não... acho que foram 45 shows em dois meses, foi uma coisa meio louca, show quase todo dia... e a banda assim... o Daevid ficou feliz com a ideia, e esse projeto com a minha participação ele foi mais ou menos uma ideia que ele havia tido quando esteve no Brasil, aí o que aconteceu? Ele falou, como não tem sintetizador, ele sugeriu que seria legal a entrada de um outro guitarrista, um guitarrista inglês, que é o Kavus Torabi, que tá na banda também, entrou em 2014, pra tentar reproduzir, pra tentar dar uma similaridade com o som que a gente fez no Brasil, e o Kavus entrou em 2014 e começamos a gravar um disco... na verdade o Kavus entrou no final de 2013, e a gente tava gravando o disco “I See You”, com o Daevid, e a banda tava com uma grande perspectiva, a gente assinou contrato com a Snapper, uma gravadora interessante aqui da Inglaterra e com a proposta da gravadora, a gente tinha uma turnê agendada enorme, acho que eram 60 shows em 2014, a partir de julho... só que aí o que aconteceu foi que o Daevid, a gente fez os shows no Brasil no início de 2014 e logo que ele voltou pra Austrália ele teve um acidente, em que ele quebrou o braço, por conta disso ele acabou descobrindo que tinha um câncer por baixo da pele, enfim... foi toda a história, foi um sofrimento de quase um ano, que ele tentou tratar... e no fim ele desistiu, ele deixou a natureza agir, parou de fazer tratamento para câncer e tal... desistiu de ficar sofrendo desse jeito. E o que aconteceu é que a gente cancelou a maioria dos shows, quer dizer, os shows foram cancelados porque o Daevid era o fundador da banda, era a banda! Mas, mesmo assim, alguns promotores aqui na Europa, tanto na Inglaterra como na França, quiseram manter os shows, porque achavam que a gente podia fazer, o Daevid queria muito que a gente continuasse, que a gente fizesse de qualquer jeito os shows, então a gente falou... ‘bom, vamos tentar, né’... e o que aconteceu foi que a gente fez uns 10 shows dos 60... a gente fez 10, e com esses 10 shows, a banda foi muito bem recebida porque, eu vejo uma coisa interessante aqui na Europa, principalmente na Inglaterra, que o público dá suporte pro artista, ele realmente quer incentivar o artista a produzir coisas novas, ele não... claro que ele gosta de ouvir as coisas clássicas, mas ele sempre tá querendo apoiar o que o artista tá fazendo de novo, porque assim a coisa tem continuidade, então, por isso eles mantiveram alguns shows marcados e, como a banda teve uma recepção muito boa, passou alguns meses e a gravadora, que havia feito o disco com a gente, o “I See You”, ela perguntou se a gente não queria renovar o contrato e fazer mais um disco... bom, aí a gente achou ‘bom, legal, vamos renovar’... mas a gente não tinha repertório, não sabia o que ia fazer sem o Daevid! E aí logo depois foram acontecendo os fatos com ele, ele faleceu e a banda continuou nessa decisão, como já tinha feito essa turnê sem o Daevid e ele queria muito que a gente continuasse, a gente falou ‘vamos continuar’, mas na verdade, é uma outra banda com o nome de GONG, e o que fez que a gente realmente aceitasse essa ideia de continuar com o nome de GONG é que o GONG, mesmo sem o Daevid existiu em alguns períodos... o Daevid saiu em 73 e voltou em 74, ficou um ano fora e a banda continuou sem ele, isso na época clássica do GONG, em 75 ele saiu e a banda continuou sem ele, por mais três discos, aí o Pierre Moerlen, que era o baterista, assumiu a banda, então em certa parte a gente achou que manter o nome do GONG não era uma coisa que ia ser tão diferente do que já aconteceu no passado. O fato é que a banda atualmente não tem nenhum integrante original, apesar que eu, o baixista e o saxofonista tocamos na última formação, então, é como se fosse a continuidade desse último trabalho, mas, por outro lado, isso deu liberdade pra banda produzir uma material novo, um pouco desvinculado da mitologia do GONG, do Planeta Gong, etc. A gente mantém algumas características, fazendo som psicodélico, que tem a marca do GONG, mas a gente, a parte literária, que era uma coisa muito do Daevid Allen, a gente deixou um pouco de lado... e o que aconteceu foi que a gravadora ficou muito entusiasmada com esse trabalho e resolveu promover, divulgar bastante, e o que está acontecendo, pra nossa surpresa, é que o disco está recebendo um monte de críticas favoráveis e tal e a gente já tem assim, o que foi difícil no ano passado, no retrasado, por conta de shows, esse ano a gente já tem essa turnê na Inglaterra, que é uma turnê de 10 shows, que já é razoável e no ano que vem, já temos shows marcados até setembro, outubro... então a banda vai ter uma... é como se fosse o renascimento também dessa banda, porque não é a mesma banda, não é o mesmo GONG, mas ao mesmo tempo é uma banda trazendo um som mais moderno, mais novo... então, a perspectiva do GONG é muito boa aqui na Europa, eu não sei como será financeiramente, mas eu acredito que, o fato de eu estar na banda agora, eu tenho uma participação, não como no Violeta, não sou aqui o líder da banda, mas eu escrevi várias músicas nesse disco tem, apesar de ter assinado todas as composições em conjunto, eu trouxe cinco faixas pra banda, então assim... é um trabalho que tá dando um prazer de fazer, é um trabalho coletivo um pouco diferente do que a gente faz no Violeta.


· Nota: o novo álbum do GONG foi lançado no dia 16/09 e se chama “Rejoice! I'm Dead”


E falando do lançamento... O Violeta de Outono trás em “Spaces” sete belas faixas, abrindo com a longa e complexa “Imagens”, onde os quatro músicos esbanjam a já conhecida qualidade, da cozinha bem entrosada do baixo de Gabriel e da bateria do Zé Luiz, aos climas criados pelo tecladista Fernando, completados pela sempre primorosa guitarra de Fábio, sem esquecer a suave e bem postada voz.

O disco segue bem, em faixas que mostram um Violeta de Outono belo e viajante, mostrando um som que aqueles velhos amigos lá do começo da resenha não ouvirão nas rádios, mas que, com certeza, quem aprecia BOA MÚSICA, saberá onde encontrar. No meio de tanta coisa medíocre do universo musical brasileiro que rádios e TV’s empurram goela abaixo do pobre público, Violeta de Outono é coisa para poucos, e bons!

Não sou capaz de apontar um ponto alto no disco, tudo é linear, mantém um padrão, da bonita balada “Kevinland”, passando pelo clima espacial da instrumental “Parallax T-Blues”, até chegar ao encerramento na longa “Cidade Extinta”, esse trabalho se mostra um ótimo encerramento de trilogia. Agora, fica a pergunta, se esse foi o fim de um ciclo, o que virá pela frente? Qual será o próximo passo do Violeta de Outono? Aguardo, bem ansioso.

Finalizando, agradeço a atenção que o Fábio sempre nos dispensou ao longo de vários anos e ele ainda mandou um recado e nos falou especificamente sobre “Spaces”:


Eu que agradeço, você sempre foi um apoiador do nosso trabalho com o Violeta, sinceramente, pra gente, o “Spaces” é o disco que a gente conseguiu chegar num disco, não vou dizer o disco perfeito, mas um disco em que a gente realmente tá satisfeito, em todos os aspectos, tanto a parte sonora, o som que conseguimos no estúdio, a produção que a gente conseguiu, o tipo de som que a gente realmente queria... e o disco tem uma sequência amarradinha, é como se fosse um trabalho de rock progressivo clássico, então, legal que você curtiu e a gente tá apostando bastante nesse disco! E pode contar com a gente, precisando de qualquer coisa, estamos sempre à disposição!




Obs.: Publicado originalmente no PORTAL ROCK PRESS.

Reverendo Frankenstein - “Está Vivo... Está Vivo!”

Reverendo Frankenstein - “Está Vivo... Está Vivo!”

RF Records – 2016



Por: Ricardo Cachorrão Flávio

Nota: 8,0


Na estrada desde 2012, os rapazes M. Krempel (vocal), Alex From Hell (guitarra), Felipe INRI (baixo) e Fábio Kovero (bateria), saem do ABC Paulista com sua colcha de retalhos musical que mistura o melhor do rock and roll, rockbilly, punk rock e surf music numa bem azeitada salada, que gera um psychobilly empolgante e visceral.

Depois de lançar um single digital em 2014 e participar de várias coletâneas, inclusive fora do Brasil, em 2016 chega a hora do primeiro álbum completo, o excelente “Está Vivo... Está Vivo!”, lançado no sugestivo dia 31/10, o Dia das Bruxas!

Indo ao que realmente interessa, da abertura com o tema “A Vingança de Frank”, você já tem ideia do que te espera ao longo das 8 faixas do disco da Reverendo Frankenstein: muito rock’n’roll clássico, com pitadas de surf music, punk rock, rockabilly, todas bem costuradas, como na clássica história do monstro de Mary Shelley, gerando uma cacetada certeira do melhor do psychobilly.

“I Hate You Baby” (essa, uma versão de um clássico do rockabilly brazuca, da banda K-Billys), “Esse Ser” e Trauma” continuam o álbum e dão o tom festeiro, impossível ouvir parado, esse som DEVE ser dançado alucinadamente, guitarras, baixo e bateria certeiros e muito bem gravados.

Boa surpresa é a versão de “A Praieira”, de Chico Science & Nação Zumbi, que vem na sequência, não se limitaram a fazer um cover, imprimiram identidade própria e o resultado foi ótimo, um psychobilly do mangue!

Com forte pegada surf music, vem “Tailspin”, tema instrumental que conta com a participação especial de Daddy – O Grande, autor da música, guitarrista da banda americana Los Straitjackets, e agora já escrevo em pé, pois não tem como ficar parado! Sonzeira monstra!

“Lado Escuro”, faixa velha conhecida do repertório da banda, que fez parte no EP de 2014, emendada por “Entre Trevas (Fique Longe de Mim)”, encerram o disco como começou, em alto nível! Reverendo Frankenstein, um monstro que vale a pena levar pra casa.


A rapaziada está animada, divulgando o disco e tocando a valer... quem quer se divertir, não perca, é garantido!

Obs.: Texto publicado originalmente no ROCKONBOARD.


Brujeria - "Pocho Aztlan"

Brujeria - “Pocho Aztlan”

Nuclear Blast – 2016





Por: Ricardo Cachorrão Flávio


Nota: 8,0


Desde 2000 sem lançar um álbum completo (“Brujerizmo”), eis que em 2016, Juan Brujo e seu bando nos presenteiam com “Pocho Aztlan”, novo álbum, nem tão novo assim, pois algumas das canções já eram ouvidas em shows nos últimos anos, o que, definitivamente, não deprecia em nada o trabalho, pois o registro era mais que necessário.

A banda vem divulgando esse lançamento através das redes sociais há meses, o que estava gerando grande ansiedade, e o resultado foi o esperado: Brujeria, sendo Brujeria! Com tanto tempo de estrada, é natural que apresentem um amadurecimento e melhoria técnica, o disco não soa tão “tosco” quanto na estreia (“Matando Güeros” / 1993), é mais limpo e moderno, mas é tão furioso quanto!

Como explicado no release distribuído no pré-lançamento, Pocho Aztlan é furioso desde o nome, que é uma expressão que poderia ser traduzida como ‘terra prometida desperdiçada’, uma referência formada pela junção de Aztlan, o lar ancestral dos astecas, com Pocho, termo não muito educado que os mexicanos nativos usam para se referir aos seus que nasceram nos EUA, ou incorporaram a cultura norte-americana – ironicamente, como o próprio Juan Brujo.

O disco é aquela desgraceira característica, death metal / grindcore pra lá de esporrento, cheio de referências satânicas e outras temáticas conhecidas, que passeiam por problemas de imigração, tráfico de drogas e política, sendo repetitivo, Brujeria, sendo Brujeria.


Para finalizar, é impossível ouvir canções como “Pocho Aztlan”, “No Aceptam Imitaciones”, “Angel de La Frontera”, “Plata o Plomo”, “Satongo”, “Isla de La Fantasia” e o matador cover de “California Über Alles”, dos Dead Kennedys, que encerra o álbum, aqui chamado “California Über Aztlan” sem ter vontade de partir pro pogo! É muita porrada, da boa! No meu caso, disco para acalmar os nervos! Recomendadíssimo.