sábado, 27 de dezembro de 2008

Entrevista - Ariel

Entrevista – Ariel (Restos de Nada)

Esta entrevista estava programada há mais de um ano, mas toda vez em que nos encontramos em vários shows ou baladas, começamos tomar cerveja e o papo para a RP acaba ficando pra depois. Depois de um puxão de orelha da nossa querida editora, finalmente marcamos o encontro.

Por Ricardo Cachorrão Flávio
Colaboração: Cláudio José de Morais
Fotos: Eli Kazuyuki Hayasaka

O local escolhido é a Galeria Nova Barão, no Centro de São Paulo, uma alternativa para quem gosta de rock de verdade e não tem mais paciência de encarar a velha Galeria do Rock, que virou um grande Shopping Center, infestado de emos por todos os lados! Acomodamo-nos dentro da loja Art Rock Discos, servidos de muitas cervejas e assistindo a um DVD do The Who. Neste cenário, Ariel chega acompanhado da sua esposa, a inseparável Tina, e começamos a falar de tudo: passado, presente e futuro do rock and roll e, é claro, do punk rock!


RP: Começando com o básico, como começou o movimento e sua banda? Por que Restos de Nada?

Ariel: Isso começou em 1977, com esse nome, Restos de Nada. Antes do Restos de Nada, o Clemente montou um projeto com o Douglas, que chamava Organus e eles já tinham essa música no repertório. Então aí, por causa da música, acabou ficando o nome Restos de Nada para a banda. Quanto ao movimento, começou também por aí, um punhado de moleques que curtiam Rock’n’Roll e que andavam sempre juntos, tanto pra escutar um som na casa de alguém, quanto pra ir em algum salão que tocasse esse tipo de música.

RP: É um nome forte...

Ariel: É assim, baseado nisso aqui... Se tudo já está consumido, nós somos apenas restos de nada! Não sobrou nada mais pra se gostar!

RP: E como é que começou essa agitação?

Ariel: Então, isso tudo começou... a gente estudava tudo na mesma escola, o EETAL na Vila Carolina, ali no bairro do Limão. Em 77 eu tinha 17 anos, eu era um dos mais velhos, o pessoal tinha 14, 15 anos, e tinha uma cena de rock and roll ali, tinha um pessoal que tinha uma vivência já de rock and roll e nessa época já existiam várias turmas, não chegavam a ser gangues e tal, não tinha essa intenção de ser gangue, eram turmas que curtiam rock em casa e tinham salões na época, que eram a Led Slay, a Fofinho, na Zona Leste, a Portuguesinha, na Vila dos Remédios, o Racket, na Vila Leopoldina, o Sberock em São Caetano, eram poucos salões de rock... e aquele pessoal se encontrava pra ir pros salões para curtir um som e se inteirar das novidades, conhecer outras pessoas, por aí...

RP: Isso era em...

Ariel: A gente começou com uma cena lá em 74, quando o Alice Cooper veio ao Brasil fazer aquele show... eu só não fui porque tinha 14 anos, não... tinha 13 anos na época!!! Não dava pra eu ir... meus pais não deixavam (risos). Não tinha como, 13, 14 anos, nos anos 70! Aí a gente se reunia em casa, pra escutar esses caras, que eram Alice Cooper, UFO, Cactus, Dust, Pink Fairies... só esse tipo de som... MC5, Stooges, quer dizer... não tinha Led Zeppelin pra nós, Deep Purple e tal! A gente escutava mais lado B total! Pink Fairies, Hawkwind, Sir Lord Baltimore, Frijid Pink.
E o pessoal curtia muito essas coisas, por exemplo, o Indião (Nota: vocalista das bandas Hino Mortal e Condutores de Cadáver, autor da letra de Desequilíbrio, gravada pela Restos de Nada, dentre muitas outras), tem um primo que mora em Detroit e nessa época, 73, 74, ele conseguia fitas demo do Stooges e mandava pra cá e isso o Índio compartilhava com a gente através de fitas cassete. O índio era de uma gangue da V. Santa Maria, que era vizinha da V. Carolina, chamada Ostrogodos, que viviam de jaquetas de couro, botas, calça jeans... calça jeans naquela época, era como se você fosse numa boca comprar droga! Ficavam uns caras na esquina assim, falando “Calça Lee... Calça Levis”... aí você falava que queria comprar e os caras falavam pra ir com eles, te levavam numas quebradinhas, subia nuns prédios suspeitos pra caralho! E você falava “Pronto, vão me roubar aqui”... e você chegava nos lugares, comprava a calça Lee e apertava na hora, porque não tinha do jeito que a gente queria, era tudo normal demais, então os caras tinham umas máquinas de costura lá, riscavam com giz, cortavam e apertavam na hora, e você saía com a calça pronta! Ou então era a “Boutique Lixo”, que importava carregamentos de uniformes americanos, usados nas guerras.Tinha umas jaquetinhas de marinheiro, sabe aquela igual do Pato Donald? O pessoal da Carolina descobriu esse pico e comprou uma pá ... então era assim, ficavam uns 10, 15 caras com essas jaquetinhas! Num lugar onde tocava samba, tinha escola de samba... e você andar assim, já era um diferencial! Pô, e curtir rock! E rock maldito! Não era o mainstream do rock! E a maioria estudava no EETAL... nessa época, 76, 77! Aí a gente não entrava em aula! Ficava cabulando aula! Um levava um violão e ficava ali, na porta da escola, fazendo um som e tomando vinho barato! Tinha uma padaria próxima, continuava lá até dar a hora de voltar pra casa! E começou aí! Ali se formaram várias bandas de rock, e as primeiras bandas punks! O pessoal do Restos de Nada já estava todo ali! Tinha o Charles, que era o baterista, ele não estudava na escola, mas era um puta músico, um pouco mais velho que a gente. Tocava violão, flauta, tocava sax, bateria, piano...

RP: E eram Ariel, Clemente, Charles e Douglas...

Ariel: E eu não tocava porra nenhuma! Eu era o único que não tocava nada! O Clemente já tinha iniciação, o Douglas, o pai dele tocava sanfona então ele já tinha uma iniciação musical e o Charles era músico, tocava violão, flauta, piano, sax e já mandava ver! E ele gostou pra caralho, se identificou com a gente! Ele era pra estar mais pro lado do rock and roll, da MPB, mas na hora que viu a gente com aquela energia e com aquelas letras, se aproximou da gente e ‘Cargaaaaaa! Como ele costumava dizer.
E nessa época o pessoal já escrevia muito, era muito existencialista! Tipo Jean Paul Sartre, sabe aquelas coisas? Era muito existencialista! Nietzsche, Antonin Artaud, Jean Paul Sartre, Herman Hesse, Maiakówski! A gente já tinha essa formação! E se escrevia muito! Muitos textos, desabafos sobre repressão familiar, desilusão social, incompreensão! E muitos destes textos acabaram virando música! A gente começou a musicar esses textos! Aí começa adaptar daqui e dali e foram nascendo... Ódio, Direito à Preguiça, Deixem-me Viver, puta música existencialista, caralho! Direito à Preguiça era baseada naquele livro do Paul Lafargne,Direito à Preguiça, que era um anarquista, era genro de Marx e o Marx odiava ele, devia pensar “esse filho da puta desse anarquista comendo minha filha”! (risos)

RP: E o primeiro disco, como que rolou?

Ariel: Nós começamos a banda em 78 e só fomos gravar o disco em 87!

RP: Gravar era foda naquela época...

Ariel: É, isso não existia para o Rock vindo da periferia! Tanto que... o estúdio onde foi gravado o Grito Suburbano, que era aqui na boca do lixo, o Roberto Carlos gravava lá, era ali na Rua do Triunfo, lugar barra pesada! Era difícil ter estúdio até mesmo para ensaios, quanto mais para se gravar! O estúdio era enorme, mas os caras não sabiam... (até hoje no Brasil, os caras não sabem) gravar Rock direito! Porque naquele tempo, tinha o crooner, a banda gravava, vinha o crooner e punha a voz, a banda ficava lá embaixo e a voz do cara vinha lá em cima...

PAUSA: Durante a resposta chega o dono do bar da galeria para levar mais cervejas e fechar nossa conta.

Ariel: Então, continuando... na época a gente ainda não tinha gravado nada, na época era até difícil tocar, na verdade! A gente fez um som no Construção, na Vila Mazzei, que era um dos poucos salões de rock que existiam. Era lá que você conhecia as novidades, se você queria escutar o que estava rolando de rock, era lá! E a gente tocou no Construção, em 79, junto com o Condutores de Cadáver,. Aí o pessoal começava a falar ‘saí daí queremos escutar som de fita’, que era som de fita cassete na época! ‘Saí daí’, porque a gente sempre estava junto, de repente eu subo no palco e começo a cantar com uma banda de verdade! O pessoal não entendia isso! Ficavam gritando pra descer e falavam ‘o que esses cachaceiros estão fazendo lá em cima? Quero ouvir som de fita’! Mas daí, o Aguinaldo que era o DJ do salão, gravou o show em fita cassete e depois colocou a fita para tocar e neguinho agitava pensando que era som gringo. Aí eles davam valor, porque estava rolando em fita cassete! Eles não admitiam, o pessoal daquela época não admitia, que uma banda punk nacional, que eram os amigos deles, subisse e tocasse.
Então, falando do disco... nessa época a gente não registrou nada, era quase impossível se gravar alguma coisa. Tanto que só foi sair disco em 82, que foi o Grito Suburbano, depois a Lixomania que lançou um compacto e a Inocentes gravou o Miséria e Fome.

RP: Recentemente conversei com o Miro, do Lixomania, e ele falou algo sobre o lançamento do compacto, coisas sobre a banda ter sido limada do Grito Suburbano e depois ter lançado um compacto, pois faltava grana para fazer um LP...

Ariel: Foi a mesma coisa com a gente, do Inocentes, na época. Fora que todas as músicas tinham sido censuradas. Então, as músicas que foram no compacto, a gente mudou o título, mudou alguma coisa na letra, mas na gravação foi como era, entendeu? Por exemplo, a música título, que era Miséria e Fome, ela acabou saindo com o título Apenas conto o que eu vi, o que vivi, que era uma das frases da música. A gente fazia isso pra poder passar, mandava pra censura e eles metiam um carimbo “APROVADO” ou “NEGADO”. Mandamos e voltou tudo “negado” e mandamos de volta, mudamos alguma coisinha, aí vinha aprovado, mas só deu pra fazer um compacto.
Em 87, a Restos voltou a se reunir pra resgatar aquelas músicas de 78, a gente falou ‘pô a gente podia registrar aquelas músicas’... eram músicas muito boas pra deixar sem registro. Aí o Chicão, da Devil Discos, disse que gravava. Foi gravado no estúdio Guidom, que era um puta estúdio na época, era de um gringo, americano, e acho que acabou saindo com uma puta qualidade, coisa rara na época. A gravação ficou muito boa, tanto que até hoje em dia, eu considero um dos discos nacionais de Punk Rock melhores gravados, porque foi gravado mesmo por profissionais, tinha até engenheiro de som, produtor artístico, assim, ficou caprichado! Aí voltou a primeira formação, o Clemente, o Charles, eu e o Douglas, pra registrar essas músicas, os arranjos não foram mudados, ficou tudo igual era na época. E no final desse disco tem um trecho de uma gravação do show no Construção, de 79... tem uma gravação também que a gente fez no Olimpop, na TV Tupi, em 80, que era ‘Olimpíada da Música Popular’ e a gente foi lá, gravou e foi ao ar, inclusive fomos classificados para a próxima fase do programa, o Cólera foi, gravou e não foi ao ar. A TV Tupi pegou fogo. Será que o Punk Rock da época foi demais para a TV brasileira? (risos). Tem um comentário, do nosso visual, etc., feito por Wilson Simonal, que era jurado na época. Muito bizarro!!!

RP: E a discografia inteira de vocês, termina aí?

Ariel: Temos o Restos de Nada, de 87 e o Restos de Nada II, de 2001. Esse tem gravações de 1980, num terreno baldio, na Vila Carolina, feitas pelo nosso Professor Pardal, o Genaro, com um gravadorzinho, e muitas músicas não estão no LP de 87, a gente resolveu fazer isso como história, a gravação tá horrível, tá péssima, mas assim, tem muitas músicas que não estão no primeiro disco e a gente gravou quatro músicas inéditas, no estúdio do Kuaker, com o Luiz, no Baixo, que está até hoje e o Cuga na Bateria. Agora a gente lançou um DVD, que a gente gravou no Hangar 110, com uma formação que vem se apresentando por aí, com o Douglas na Guitarra, eu no vocal, o Luiz no Baixo e o Douglinhas na Bateria, nesse ano de 2008, e tá muito legal, feito por Clóvis Mendes e acho que o Praxedes tem ali na loja, depois eu pego. (Nota: Praxedes é vocalista da banda Excomungados e tem um sebo em frente à loja onde a entrevista estava sendo feita).

NOVA PAUSA: Chega a conta do bar...

RP: A sua entrada como vocalista dos Inocentes, como aconteceu? O vocalista anterior, Maurício Shit, foi expulso da banda, ou saiu de boa?

Ariel: Isso mesmo, o Mauricinho, grande figura, encontrei com ele esses dias, inclusive, teve um show lá no Lady Hell, uma banda lá ia tocar vários clássicos nacionais do punk antigo, e encontrei com ele lá... ele cantou Garotos do Subúrbio do Inocentes e eu cantei Desequilíbrio, pra variar (risos).
Bom, na verdade é assim, a Inocentes quando surgiu, ela surgiu de uma banda que se chamava Condutores de Cadáver. Da Condutores, ficaram o Clemente e o Callegari, aí entrou o Marcelino na bateria... e o Mauricinho, que andava próximo dos caras, começou como vocalista. Eles gravaram o Grito Suburbano. Aí, na verdade, eu não sei qual foi a história da desavença entre eles, mas o Mauricinho, pelo que eu ficava sabendo, era o porra-louca, que já não interessava mais, pelos vôos que a Inocentes queria alçar.

RP: (interrompendo) Eles queriam fazer um lance mais profissional...

Ariel: Isso... quer dizer, acabou rolando comigo também depois, mas aí já é uma outra história... Então... o Mauricinho acabou saindo, e eu entrei! Eles ficaram sem vocalista um tempo, aí num show que teve... o lançamento do Grito Suburbano inclusive, que teve lá em Santana, eu fui e cantei uma música, aí depois me convidaram pra ir pra Campinas, que eles foram fazer um show em Campinas, eu estava também na banda Desequilíbrio, que era uma banda que veio da Restos de Nada e que acabou se dispersando. E isso foi por volta de 81.
Então em 81 eu saí da Desequilíbrio e imediatamente entrei na Inocentes. Eles me convidaram no show de Campinas, onde acabei cantando algumas músicas e depois entrando na banda. Mas a saída do Mauricinho foi baseada nisso, eles queriam alçar outros vôos e o Mauricinho não servia mais pra isso, segundo o que eu fiquei sabendo. Eu fiquei na Inocentes de 81 até meados de 83.

RP: Gravaram Miséria e Fome nesse período...

Ariel: Gravamos Miséria e Fome, tocamos na PUC, no Começo do Fim do Mundo, no Gallery, no Rio de Janeiro, quando rolou a invasão punk de São Paulo onde fomos nós, a Lixomania e a Ratos de Porão, um show histórico, em janeiro de 83, no Circo Voador...

RP: A Ratos, antes do Gordo...

Ariel: É, a Ratos sem a ratazana, só os ratinhos (risos)... Jão, Mingau, Betinho e o Jabá... eles eram parceiros da gente, a gente ensaiava junto, a gente puxava esses ratinhos junto com a gente, na época dos Inocentes... ele ensaiavam junto, a gente levava eles pra tocar, levamos eles pro Rio em 83, quer dizer, a gente fazia muita coisa em conjunto... aí depois, quando os Inocentes queriam dar vôos maiores ainda, eles resolveram que eu não servia mais, porque eu era muito radical, por exemplo: eles queriam tocar num lugar chamado Hong Kong na época, que era uma casa noturna de playboy, meio new wave e tal... aí eu me neguei, falei que não queria!

RP: Mas você já tinha tocado no Gallery, por que não tocar nesse outro lugar?

Ariel: Mas isso foi antes do Gallery! Quando foi pra tocar no Gallery, nós fizemos uma reunião! Os caras queriam ir lá e tocar bonitinho, limpinhos e comportadinhos... Eu e o Marcelino, a gente se negou, falamos: ‘Não, a gente não vai!’, ainda mais por que era o Gallery e tal, aquela história toda, lugar de alta burguesia e o cacete... aí, depois de tanto conversar, a gente chegou à conclusão de que a gente iria só se fosse pra zuar tudo, pra foder com tudo! Isso eu e o Marcelino que queríamos, o Clemente e o Callegari não queriam! Aí fomos lá e quebramos tudo, literalmente! Afinal de contas, era a nossa proposta inicial, como banda de Punk Rock e integrantes de um movimento que pregava mudanças de comportamento, contra o esquema da sociedade deveríamos fazer nós mesmos! Depois de um tempo e de algumas atitudes dos caras, percebi que sómente eu pensava dessa forma.

RP: Quem assistiu Botinada tem uma idéia de como foi a brincadeira...

Ariel: Acredito que não faria sentido ir lá para ser miquinho de burguês, não é mesmo?
Minha saída da Inocentes foi realmente muito traumática, ficamos um bom tempo sem trocar idéias e pelo que li recentemente numa entrevista dada pelo Clemente, num site, minha saída se deu exatamente pela minha radicalidade e por estar atrasando o lado da banda, com minha falta de profissionalismo. Acho que ele pensa até hoje que eu fui o responsável pelo título de Traidores do Movimento que carregam. Sinceramente, não acredito nesse lance de traição, mas jogar fora toda uma postura criativa e cheia de sentido pra dar lugar a algumas promessas de fama, me entristecia. Os caras não entenderam que poderíamos ter criado uma cena independente fortíssima, com autenticidade e disposição, pois éramos de uma certa forma um elo de união dentro do movimento e linha de frente para qualquer parada, seja para organizar shows e festivais, editar fanzines, manter contatos internacionais, fazer nosso próprio visual, ou seja, dar uma identidade pra coisa. Hoje em dia já esquecemos essas picuinhas “pessoais” e o tempo deu a resposta, mesmo que não seja a que gostariam de ouvir...

RP: E o contexto político hoje? Naquela época existia a repressão, ditadura... na verdade, estamos em 2008, muita coisa mudou... existe punk hoje?

Ariel: Existe pra caralho!

RP: Como era na época? E hoje?

Ariel: Na verdade, eu classifico assim... o Punk como uma montanha russa! Tem hora que está lá em cima, aí vem um monte de gente procurando pra fazer matéria, tese de faculdade, neguinho dizendo ‘Eu fui punk, eu sou punk, minha banda toca alguma coisa de punk’, ou seja, todo punk é lindo! Aí quando acontece alguma merda, neguinho vai e mata não sei quem, acontece aquelas merdas, todos tiram o cú da reta, não sabem avaliar como posturas individuais, procuram um motivo pra malhar e só...Acontece que logo após o festival do SESC de 82, a coisa deu uma desandada e já no meio dos 80, quase não se ouvia falar de Punk, somente aconteciam manifestações anarquistas, com forte presença do pessoal punk engajado, no 1º de Maio, 7 de Setembro, contra a intolerância, tomando pau dos milicos e tudo mais. Esse pessoal da primeira hora tinha se desiludido com o Movimento, pois as gangues estavam ativas e perigosas em São Paulo e bandas como Cólera, Inocentes, Ratos de Porão tinham cada qual buscado sua melhora, desclassificando o movimento como um todo, mas o que eles se esqueciam é que tinha sobrado um pessoal pra segurar esse rojão, que não arredou pé, que se fodeu, que batalhou pra que ainda tivesse uma cena, que enfrentou e enfrenta a extrema-direita e os grupos neo-nazistas, que preparou o terreno até mesmo pra elas voltarem a se apresentar novamente por aqui.
Olha, levou 25 anos pra ter um festival nos moldes do Começo do Fim do Mundo e mais uma vez, nós os malditos, estávamos envolvidos, orientando as paradas.

RP: Quando aparece um cara matando outro no Parque Dom Pedro com uma tatuagem da Restos de Nada...

Ariel: Aí desce... aí fica lá na sarjeta! Mas assim, esse lance tá bem menor, bem menor... antigamente era mais forte esse tipo de coisa, mas ainda existe! Esses dias mesmo, faz umas semanas, saiu uma puta treta ali na galeria... uns punks e uns nazistas, uns white powers, mandaram uns pro hospital... depois vieram e pegaram os punks na noite, fatos isolados e cotidianos dessa metrópole...sem agressões a “civis”.
Acho que é o seguinte, hoje em dia não tem mais uma cena punk, são várias cenas... a gente toca muito nas quebradas. Tem um lugar lá em Sapopemba, o Espaço da Cultura Suburbana (Nota: bairro da periferia de São Paulo) que rola muita coisa legal, com diversas bandas de vários estilos e sempre está cheio... olha, onde a gente vai, tem uma cena! A gente foi tocar num boteco na Brasilândia, um domingo desses, você precisava ver como estava cheio aquilo! Tem a verdurada que utiliza a estética punk que atrai um número enorme de pessoas, com ativismo. E com pessoas diferentes. Pelo interior é a mesma coisa.

RP: Era show da sua outra banda, a Invasores de Cérebros?

Ariel: Isso, era a Invasores... muito cheio! Pô, a gente vai tocar em qualquer lugar, em uma quebradinha qualquer, tem uma cena! Então, hoje em dia, não é mais UMA cena, é muito difícil punk estar unido hoje em dia! São várias cenas... mas existe e está ativíssima, muitos shows, zines, debates, vídeos, etc.! Você vê molequinhos de 11, 12, 13 anos de idade! Nós viemos tocar outro dia aqui em frente à galeria... pô, o pessoal tomou tudo ali na praça! Esses dias mesmo, a gente tocou com o Restos de Nada e o Zefirina Bomba, os caras são de João Pessoa, na Paraíba... os caras falam que lá os caras curtem a gente, eles dizem que nós somos influência pra eles! Pô, da Paraíba! Os caras chegaram falando que o pessoal de lá mandou um salve pra gente!

RP: O Zeferina é uma banda muito legal... molecada...

Ariel: Isso mesmo, molecada... e você pega uma banda igual o Devotos, do Recife, que está aí a um bom tempo e mantém um ativismo também... eles também dizem que as bandas de São Paulo são influência pra eles! E você pega o Zeferina, eles tocam com um violão...

RP: Uma viola distorcida...

Ariel: Isso mesmo... mas é envenenada... não sei o que eles põe ali... eu perguntei pra ele e ele não quis falar não (risos) e ainda falou ‘ahhh... isso aí é coisa velha’...

RP: E é uma banda interessante, mistura várias influências... punk com Syd Barrett...

Ariel: E isso é legal! Isso não é nada desprezível, isso é legal, incorpora, acrescenta, o cara dá a visão dele pras coisas, isso é muito bom e eu acredito nisso, no experimentalismo em cima de uma cultura urbana! E a cena hoje em dia, quer dizer as cenas, pois são várias cenas, têm som que vai desde o punk mais tosco, passando pelo barulho do grind, que isso tudo vem do punk, crossover, essas coisas, tudo isso tem influência do punk! Até essas bandas que tem uma pegadinha meio pop, um negócio meio Nirvana e tal, bandas como Rock Rocket, aqueles moleques lá, que falam que tem influência da gente e tal, tem aquela coisa toda... isso, pra mim, é importante, é bom! Por mais que eles visualizem alguma chance no mainstream e tal, mas... pelo menos eles estão se espelhando em alguma coisa legal! Não estão pegando as coisas dos anos 90, estão indo mais fundo, buscando lá nos anos 70! Porque os anos 90 é aquilo, né? Tudo muito diluído!

RP: Então a rapaziada acaba indo buscar as coisas lá atrás, as raízes...

Ariel: Igual... quando a coisa estava muito na mão dos progressivos e tal... aquela coisa chata, que não era mais música pra dançar, aí o punk foi buscar o que??? Não tanto nos anos 50, mas ali nos anos 60, naquela pegada rebelde dos mods, aquela coisinha de Kinks, 13º Floor Elevators, Sonics, aquelas coisas diferentes! O punk foi beber daquela fonte, foi buscar a influência para os anos 70.

RP: E como foi de repente a chegada de Sex Pistols e Clash? Foi impactante mesmo? Teve influência em vocês?

Ariel: Claro, tinha sim... isso pegou! Olha, e é um contra ponto... Clash era completamente diferente de Sex Pistols. O primeiro disco do Clash é o único que eu gosto, na verdade! Depois já tem aquela coisa... diluiu muito... E é assim... o Joe Strummer ele tinha uma banda antes, que era o 101ers, que era anos 50 total, você já ouviu isso?

RP: Nem conheço...

Ariel: Pô, procura isso, cara! Era o 101ers, tinham uma pegada anos 50, eles tocavam de terninho, aqueles terninhos todos grandes, sabe? Tipo rock’a’billy mesmo... depois que ele formou o Clash! Mas é assim, a diferença dos Sex Pistols pro Clash era gritante... Pô, Sex Pistols era uma banda mais... mais irônica e debochada! God Save the Queen e Anarchy in the UK... puta que o pariu! As letras, a sonoridade, o deboche! Puta, isso era muito foda!
Esses discos chegaram um pouco depois... antes chegou o primeiro dos Ramones, eu tinha 16 anos... chegou lá na WopBop... era o único disco! Eles compravam caixas fechadas e nem sabiam o que vinha... era um de cada! Não vinham dez, vinte... era um de cada! E era assim... um disco na época custava 500 cruzeiros, e o salário de um office-boy, que era o meu caso na época, era assim... 500, 600 cruzeiros! Pô, pra você comprar um disco, era o salário do mês, ou alguma artimanha fora da lei! Aí você perguntava se podia ouvir e não podia, porque estava lacrado, se abrisse tinha que levar! Aí você via a capa, quatro caras assim, calças rasgadas... e a gente andava assim! Só que a gente não sabia que era punk (risos)... eram aquelas turmas da jaqueta de marinheiro, eram os Ostrogodos com jaquetas pretas. A gente andava assim, com calça jeans apertada, mas não tinha o nome, de punk! A gente escutava aquelas bandas que falei, como o Cactus e tal, mas não era nada como o punk! Nada como God Save the Queen! Na hora que eu vi a capa, falei ‘isso só pode ser bom’ (risos)! Pô quatro caras assim na capa, de jaqueta, calça rasgada, tênis All Star e tal, sujos, isso só pode ser bom... daí falei, ‘daí o disco vai’... na hora que escutei, falei ‘caralho velho, é isso aí mesmo! Puta que pariu’ (risos)!

RP: Para quem estava acostumado com rock progressivo nos anos 70, ouvir essas bandas era de difícil digestão...

Ariel: The Clash tinha uma sonoridade mais... audível! Pra digerir essas bandas era foda! Mas pô, você vê o pessoal do Dust! Dust andava de jaqueta de couro, aquelas botas e tal... já tinham alguma coisa... apesar do som ter uma certa viagem no meio e tal... mas tinha aquela pegada mais nervosa! E era do que a gente se aproximava. Mas não tinha punk ainda... na hora que eu escutei os Stooges, o primeiro deles, a primeira vez que escutei, eu fiquei de cara! Falei, ‘mas que porra é essa?’ Sabe? A gente tava acostumado com uma coisa, de repente vem isso!

RP: Polemizando... e quando o pessoal diz que o punk começou lá em Brasília, o que você acha disso?

Ariel: (gargalhando) Você viu o Botinada (mais risos)... os caras podem ter conseguido o disco, conseguiram escutar e tal, por que o papai trouxe da Europa... mas uma cena de punk, a primeira cena de punk... a Vila Carolina juntou tanto maluco ali, que a gente, pra ir prum som, por exemplo, o Templo do Rock, no Pari...pro Construção, na Vila Mazzei, a gente enchia um ônibus! 50 caras! 50 punks! A idade maior era 17 anos! Já vestidos de marinheiro e tal e isso acontecia em cada ponto da cidade... quer dizer, a turma já se reunia pra ouvir o disco, pra ir no som, tudo junto... subia no ônibus, não pagava nada, passava por baixo, pulava a catraca..., já existia uma rebeldia embutida ali! Agora, você vem me falar que Renato Russo... Dado Villa-Lobos... esses caras, Dinho Ouro Preto... tinham alguma coisa dessa pegada aí, meu?

RP: É...

Ariel: Peraí! Enquanto vivíamos realmente o que estávamos tocando e passando em nossas vidas, o que nunca eles imaginariam que existisse, esses caras estavam pegando simplesmente pela estética da coisa, rebeldia sem culpa! Agora, você vem me falar que aquele bando de playboyzinhos começou alguma coisa como o Movimento Punk e o Punk Rock no Brasil, cara? A gente já escutava MC5 em 74, Stooges... será que eles já ouviam isso lá também? Já tinham essa pegada do rock mais rebelde? Tinham que brigar todo dia para serem entendidos? Sinceramente não é orgulho pra ninguém dizer que é ou foi Punk, não é mesmo? Fomos jogados numa condição, não optamos...

RP: Eventualmente você faz algumas participações especiais em shows dos Inocentes, e o Clemente também participou recentemente de um show dos Restos de Nada, como é sua relação com a banda hoje?

Ariel: Acredito que a banda amadureceu e hoje tem seu lugar de destaque na música Rock, mas o Punk Rock não interessa mais a eles, portanto quando fiz algumas participações com a Inocentes, procurei resgatar uma certa identidade perdida pela banda, até mesmo insistindo em mudar alguns arranjos. Convidamos o Clemente para uma participação na música Deixem-me Viver, que por sinal é dele, pois somos parte de uma geração perdida, na verdade sobraram bem poucos daquela época, mas de vez em quando nos encontramos para matar as saudades, tocar Punk Rock, encher a cara e dar muitas risadas.

RP: O movimento punk sempre teve um grande engajamento político e social. Qual é seu posicionamento em relação a isso? Você participa de alguma ação político-social? Serviço voluntário? Vai em passeatas punks?

Ariel: Sempre participei ativamente de manifestações de cunho libertário, sendo em passeatas, em atos públicos, em debates, etc. Um dos últimos atos foi pela manutenção do Tendal da Lapa enquanto Espaço Cultural, pois o governo do Estado, numa barganha suja com a prefeitura, estava requisitando o espaço para transformá-lo num Poupatempo.
Nós editavámos um informativo chamado Ação e Anarquia, onde levávamos nossas idéias para o campo de batalha, seja numa luta específica, como a luta contra o neo-nazismo, seja numa dissertação histórica sobre as lutas anarquistas. Esse informativo deu nome a um grupo de ação direta que se mantém até hoje.

RP: Quando vamos num show do RDN hoje em dia, encontramos alguns 'punks velhos', mas o público é formado na sua maioria absoluta de muita molecada. Muitos adolescentes. Essa molecada hoje em dia, na sua opinião, está lá simplesmente por gostarem do som ou tem alguma ideologia? Tem preocupações que vão além do som visceral? O que você acha dessa 'geração internet'?

Ariel: Você tem razão, a molecada conhece tudo sobre a cena dos 80 e passou a respeitar as bandas pioneiras, tanto que nos sons comparecem em peso. Acredito que tem ideologia sim e estão cada dia mais buscando criar sua própria identidade nesse mundo tão apático e disperso. A internet disponibiliza muita informação, mas por outro lado vem muita informação distorcida, ou seja, todos se utilizam dessa ferramenta, seja para o bem ou para o mal.

RP: O que você anda ouvindo hoje? Que bandas você pode destacar? E o que você acha que é dispensável?

Ariel: Olha, recebo muito material em shows e fica muito difícil destacar alguma coisa. Gosto de bandas ousadas e que tenham algum diferencial e já vi muita coisa legal por aí, que se destacam pelo som, visual e loucura. A molecada sabe tocar e não paga comédia. Tem para todos os estilos dentro do Punk Rock, muita banda fazendo 77 e muita banda pro lado da disgracera também.
O que acho dispensável são bandas sem um pingo de vergonha de ficar tentando parecer o que não são.

RP: Em tempos de inclusão digital, o que você pode dizer sobre downloads? Música livre na internet tem seu apoio? Sei que você é colecionador de discos desde os anos 70, mas, hoje em dia, apela para os downloads?

Ariel: Acho que o som que fazemos, nunca agradaria a alguma gravadora do mainstream mesmo, e nem deveria, portanto esse lance de disponibilizar músicas numa rede mundial, que abrange todo o globo terrestre e é compartilhada de forma livre e direta, na verdade é tudo o que queríamos. Direitos autorais interessam a quem? Quem lucra com isso? O ECAD? A ordem dos Músicos, as grandes gravadoras, os empresários? Ora, fodam-se todos eles. De uma certa forma nivelou a maneira de se distribuir músicas. Coleciono discos de vinil, não tenho milhares, pois acho que quem tem milhares, tem muita merda também, portanto procuro ter o que realmente interessa para mim. Gosto de capas de discos, onde a arte tem um lugar de destaque, gosto da informação técnica na contra capa. O som do vinil me agrada muito mais, com todas as freqüências abertas.
Mas é claro que apelo para downloads, pois não é tudo que a gente acha por aí, né?

RP: Em 2008, o que o Ariel faz da vida? Qual sua ocupação? E seus projetos? Além da Restos de Nada, você canta na Invasores de Cérebros. Existem projetos em relação a estas bandas? A Restos anda tocando, mas existe pretensão de gravar algo novo? E a Invasores, tem lançamentos previstos?

Ariel: Bem, minha vida é meio confusa, a começar de minha casa, como vivo te dizendo Cachorrão, parece casa de parteira, sempre chega alguém... (risos), parece pronto socorro...24 horas (risos), mas isso sempre foi assim na minha vida. Tenho uma companheira que está comigo a 26 anos e é uma guerreira em todos os sentidos, o valor que ela tem como pessoa e batalhadora do movimento em todos esses anos não se mede em nenhuma escala. Bem, todos já devem saber que falo da Tina, né? Tenho 2 filhos, um com ela e também estão no Rock’n’Roll. Dou um trampo num escritório de engenharia, mas é bico, sem registro, pois assim o quis. Minha atividade é com movimentos. Tenho predestinação pelo lado negro da força! (risos). Estou engajado e procuro sempre integrar as frentes artísticas com as políticas. Estou sempre presente em manifestações, em atos libertários, e com minha banda também atuo nessas frentes.
Com a Restos de Nada, procuramos resgatar uma época, mostrando para quem não viu, a intensidade do Punk Rock dos anos 70, mas não vamos continuar como banda e sim como um projeto, com algumas apresentações por aí. Não pretendemos gravar nada além das músicas gravadas em 2001 que saíram no CD Restos de Nada II.
Quanto a Invasores, acaba de sair um CD com o título: O Cérebro é uma bomba relógio, o Cérebro é o apocalipse... Gravamos em sistema analógico de 24 canais no Estúdio DaTribo. Usamos amplificadores e instrumentos de verdade e acho que até agora é um dos nossos melhores momentos como banda.

RP: Sei que você eventualmente ataca de DJ. Onde é que faz esse trabalho. E quando alguém decide ir numa balada discotecada pelo Ariel, o que pode esperar?

Ariel: Bem, desde 1977 eu toco Punk Rock por aí, sempre ficava atrás dos Toca Discos e Toca Fitas nos sons que organizávamos pelas quebradas da Zona Norte. Fiz muito som com fitas cassete que gravava dos discos que tinha ou que conseguia emprestado. Atualmente recebo alguns convites para discotecar em lugares como o CB, Vegas, Inferno, Outs, Toy Lounge.
Ah! Toco basicamente Punk Rock, Power Pop e New Wave, sons altamente chacoalhantes, que embalaram gerações de punks e que até hoje em algumas dessas discotecagens, alguns punks da antiga, batem as jaquetas de couro no chão, mostrando contentamento. Modéstia à parte, quando toco ninguém sai da pista. (risos)

RP: Considerações: o espaço é seu! Divulgue, xingue, agradeça. Fale o que quiser!

Ariel: Bem, gostaria de agradecer a vc, Cachorrão, ao Eli e à nossa querida editora, o espaço concedido a esse velho punk. Ao Cláudio da Art Rock pela paciência e pelo conhecimento de causa. Ao Praxedes (Corsário Discos) e Demente (Rebel Music Records) pela força no CD da Invasores de Cérebros. Agradeço também ao Estúdio Da Tribo e a todos que de uma forma ou de outra tenham um pensamento livre de dogmas e preconceitos, aos que buscam um mundo melhor e aos que não são apáticos perante aos que tentam impor a força. Nunca desistam, por favor...
Abraços Libertários!!!



Informação:

Entrevista publicada no PORTAL ROCK PRESS

Um comentário:

nkrock@hotmail.com disse...

Entrevista muito, muito massa!!!!